domingo, 8 de abril de 2012

Filme Xingu, com Caio Blat e Felipe Camargo, entra em cartaz nesta sexta


Em 2011 o Parque Nacional do Xingu completou 50 anos de criação. Numa ocasião que deveria ser apenas comemorativa, os índios da região receberam “um presente” do qual reclamaram bastante: a aprovação da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, que usará parte das águas do Rio Xingu para a geração de energia na região. Faces opostas da mesma moeda, a consolidação do Parque, em 1961, é tida como avanço significativo para a garantia de terra dos povos indígenas, enquanto a permissão para as obras da usina pôs em questão a posse natural das tribos sobre o território em que vivem.
Nesta sexta, estreia, nos cinemas de todo o país, Xingu, do diretor Cao Hamburger, com produção de Fernado Meirelles. O longa não poderia encontrar contexto mais apropriado para ser lançado.
A produção reconta a atuação dos irmãos Villas-Bôas (bem representados pelos atores Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat) no processo que culminou na conquista do Parque, de tamanho equivalente à Bélgica, pelas tribos que habitavam a região do Rio Xingu, no norte do estado do Mato Grosso. O recorte da história enquadra quarenta anos da vida dos três irmãos - do primeiro contato deles com as aldeias até o encontro com a última tribo que nunca havia se relacionado com o “homem branco”. O filme pode parecer curto para um período tão longo, no entanto, o roteiro não soa apressado e divide bem o espaço entre negociações políticas, dificuldades práticas e conflitos internos dos personagens principais.
Para além do simples relato dos acontecimentos, a produção explora bem a personalidade de cada um dos irmãos. Apresenta o trabalho que eles exerceram na mata como elemento atrelado às suas vidas pessoais, onde, por vezes, os objetivos profissionais parecem se confundir com suas paixões. Repetindo o recurso de narração bem aplicado em seu último filme, O ano em que meus pais saíram de férias, Cao acerta em dar a voz para o mais idealizador dos irmãos, Cláudio, guiar a história a partir de suas impressões. Também se destaca a atuação extremamente natural dos índios, que praticamente só falam no dialeto original.
Exibido no Festival de Berlim deste ano, com todas as sessões lotadas, o longa foi agraciado com o Prêmio de Público do evento. No Brasil, o filme teve a primeira exibição no Amazonas Film Festival, em novembro passado. Agora, no circuito comercial, Xingurelembra a importância do trabalho dos irmãos Villas-Bôas e alerta para a preservação da cultura indígena como um progresso da civilidade.

ENTREVISTA // CAO HAMBURGER
Como surgiu o desejo para fazer esse filme? 
A partir da leitura do livro Marcha pro Oeste (de Cláudio e Orlando Villas-Bôas). Quando descobri quem eram os irmãos Villas-Bôas, fiquei encantado. A partir disso, fui a Xingu. Foi uma revelação descobrir os índios daquela região, pois eles têm uma cultura muito desenvolvida e sofisticada. Logo no primeiro contato, você percebe o grau forte de civilização deles.

O filme começou a ser gravado há cinco anos. Ano passado, após a aprovação da construção da usina de Belo Monte, no Xingu, a produção assumiu um novo sentido? 

Só reforçou o sentido que o filme já tinha. Apesar de ser um trabalho de época, tive a necessidade de mostrar como o tema continua atual e urgente. Toda essa discussão sobre Belo Monte só mostra que essa história precisa ser recontada, não só para resgatar, mas também para lançar luz sobre o século 21, sobre nossos desejos enquanto sociedade e país, que progresso queremos alcançar.

Seu filme anterior (O ano em que meus pais saíram de férias) traz um olhar diferenciado da ditadura militar, do ponto de vista de uma criança. Em Xingu, a questão da terra também passa por esse período. Qual deve ser o papel do cinema em apresentar essa visão extra-oficial de um momento? 

O papel não deve ser só do cinema, mas também da literatura, da televisão e de outros meios de mídia. Revisitar os momentos marcantes do Brasil rende muita história que dá certo, se for trabalhada com o olhar aguçado, ou seja, sem rabo preso, com liberdade e responsabilidade com o país.

Como foi ver uma temática tão nacional ser bem recebida no Festival de Berlim? 

Demonstrou que o assunto interessa ao mundo inteiro. Essa questão dos rumos da civilização e dos limites do planeta estão na pauta global. A visão dos irmãos Villas-Bôas foi de vanguarda, eles mudaram todo o paradigma da política. O triste é reconhecer que precisamos de alguém como eles novamente, pois estamos vivendo um momento político muito perigoso nessa questão.
Por Camila Estephania, especial para o Diario de Pernambuco

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